Psicólogo aplicando escala de triagem de depressão PHQ-9 com paciente em consultório
Psicologia Clínica14 de abril de 20267 min de leitura

Transtorno Depressivo Maior: Critérios CID-11, Diagnóstico e Condução Clínica

Guia completo para psicólogos sobre Transtorno Depressivo Maior — critérios diagnósticos CID-11, diagnóstico diferencial, triagem com PHQ-9, protocolos TCC e como documentar as sessões corretamente.

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Resposta rápida

O Transtorno Depressivo Maior (CID-11: 6A70/6A71) é caracterizado por humor deprimido persistente, perda de interesse ou prazer e pelo menos 4 sintomas associados por no mínimo 2 semanas, com comprometimento funcional significativo. O tratamento psicológico de primeira linha é a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), com evidência nível A para episódios leves a moderados.

O Transtorno Depressivo Maior (TDM) é um dos transtornos mentais mais prevalentes na população brasileira — estima-se que afeta cerca de 11,5 milhões de brasileiros (OMS, 2023), e psicólogos clínicos têm papel central no seu diagnóstico e tratamento.

Este guia foi elaborado para psicólogos que atuam com pacientes adultos e adolescentes: abrange os critérios diagnósticos atualizados conforme a CID-11 (vigente no Brasil desde janeiro de 2025), instrumentos de triagem, diagnóstico diferencial e orientações para a condução clínica e documentação das sessões.


Critérios Diagnósticos — CID-11 (6A70)

A CID-11 define o episódio depressivo pela presença de humor deprimido ou irritabilidade (em crianças e adolescentes) ou perda de interesse/prazer (anedonia) por pelo menos 2 semanas, acompanhados de pelo menos 4 dos seguintes sintomas:

SintomaDescrição Clínica
Alterações do sonoInsônia inicial, intermédia ou terminal; hipersonia
Alterações apetite/pesoPerda ou ganho de ≥ 5% do peso corporal em 1 mês
Fadiga ou perda de energiaMesmo sem esforço físico, persistente
Dificuldade de concentraçãoIndecisão, pensamento lentificado
Sentimentos de inutilidadeCulpa excessiva, autodepreciação
Retardo ou agitação psicomotoraObservável pelo examinador, não apenas relatado
Pensamentos recorrentes de morteIdeação passiva, planos ou tentativas

Especificadores de Gravidade

GravidadeSintomas PresentesComprometimento Funcional
Leve (6A70.0)5 sintomasModerado — mantém atividades com esforço
Moderado (6A70.1)6-7 sintomasSignificativo — dificuldade nas atividades diárias
Grave (6A70.2)7+ sintomasGrave — incapaz de manter atividades cotidianas
Grave com sintomas psicóticos (6A70.3)Qualquer + delírios/alucinaçõesGrave, requer avaliação psiquiátrica imediata

Transtorno Depressivo Recorrente (6A71)

O código 6A71 é utilizado quando o paciente apresenta dois ou mais episódios depressivos, separados por pelo menos 2 meses sem sintomas clinicamente significativos. É importante documentar o número de episódios e a duração das remissões no prontuário.


Triagem e Avaliação Psicológica

PHQ-9 como Instrumento de Rastreio

O PHQ-9 é o instrumento de triagem com maior validação para depressão maior em adultos. Pode ser aplicado pelo psicólogo na sessão inicial ou como tarefa entre sessões.

Interpretação dos escores:

EscoreNívelConduta Sugerida
0–4MínimoMonitoramento
5–9LeveWatchful waiting ou psicoeducação
10–14ModeradoIniciar tratamento psicológico
15–19Moderadamente graveTCC + avaliar encaminhamento
20–27GraveTratamento imediato + avaliar psiquiatria

Dica prática: Aplique o PHQ-9 na sessão de anamnese e reavalie a cada 4 semanas para monitorar a resposta ao tratamento. O progresso nos escores é um dado objetivo importante para incluir nas notas de evolução.

O PsiNota AI inclui o PHQ-9 integrado na plataforma, com histórico de aplicações e gráfico de evolução dos escores — disponível em /dashboard/pacientes/[id].


Diagnóstico Diferencial

O diagnóstico diferencial é uma etapa crítica para evitar erros que comprometam o tratamento. Os principais diagnósticos a diferenciar do TDM são:

TDM × Transtorno Bipolar

O TDM e o transtorno bipolar compartilham os episódios depressivos, mas no TB há histórico de episódios maníacos ou hipomaníacos. Perguntas-chave: "Já houve períodos em que você se sentia com muito mais energia que o normal, dormia pouco e sentia que não precisava dormir?" A resposta afirmativa indica investigação para TB, com encaminhamento psiquiátrico.

TDM × Distimia (Transtorno Depressivo Persistente, CID-11: 6A72)

A distimia se caracteriza por humor deprimido crônico e menos intenso (pelo menos 2 anos em adultos), sem critérios completos para episódio depressivo maior. Em alguns pacientes há sobreposição ("double depression"): distimia com episódio depressivo sobreposto.

TDM × Luto Normal

O luto não é patológico por definição. O diagnóstico de TDM durante o luto é indicado quando há: ideação suicida ativa, sintomas psicóticos, comprometimento funcional grave após 12 meses, ou sintomas muito além do esperado culturalmente.

TDM × Transtorno de Ansiedade Generalizada

Depressão e ansiedade frequentemente coexistem. Quando os critérios de ambos os transtornos são preenchidos, ambos os diagnósticos devem ser registrados. O DASS-21 permite avaliar simultaneamente depressão, ansiedade e estresse.


Condução Clínica e Protocolos

Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) — Protocolo Padrão

A TCC é o tratamento psicológico com maior evidência científica para o TDM. O protocolo padrão para adultos inclui:

Fases do tratamento:

  1. Avaliação e psicoeducação (sessões 1-3): Explicar o modelo cognitivo da depressão, identificar pensamentos automáticos negativos, psicoeducação sobre o ciclo pensamento-emoção-comportamento
  2. Ativação comportamental (sessões 3-8): Monitoramento de atividades e humor, programação de atividades prazerosas e de domínio, quebra do ciclo de inatividade
  3. Reestruturação cognitiva (sessões 6-14): Identificação de crenças intermediárias e nucleares, questionamento socrático, experimentos comportamentais
  4. Prevenção de recaída (sessões finais): Identificar sinais de alerta, desenvolver plano de prevenção, consolidar habilidades

Abordagem do Risco de Suicídio

Todo paciente com TDM deve ter avaliação de risco de suicídio documentada em cada sessão. A avaliação inclui:

  • Ideação: passiva ("quero morrer") vs. ativa ("quero me matar")
  • Plano: tem plano detalhado?
  • Intenção: pretende agir?
  • Acesso a meios letais
  • Fatores de proteção (vínculos, religiosidade, planos futuros)

Importante: A Resolução CFP 09/2019 orienta a conduta em situações de risco de suicídio. O sigilo pode ser quebrado quando há risco iminente à vida do paciente ou de terceiros.

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Como Documentar Sessões de Pacientes com Depressão

A documentação adequada protege o psicólogo, garante a continuidade do cuidado e é exigida pela Resolução CFP 001/2009.

Exemplo de Nota Clínica DAP — Sessão 4 (TCC para Depressão)

Dados:

Paciente comparece ao atendimento demonstrando melhora discreta em relação à semana anterior. Relata ter completado 3 das 5 atividades programadas no registro de atividades. Sono ainda fragmentado (acorda 2-3x por noite), apetite com leve melhora. PHQ-9 aplicado hoje: escore 14 (↓ de 18 na sessão inicial).

Avaliação:

Episódio depressivo moderado (6A70.1) em resposta parcial à intervenção. A ativação comportamental produziu melhora observável no engajamento, porém padrões cognitivos de autocrítica ("não fiz o suficiente") continuam presentes e interferem no reforço dos ganhos. Risco de suicídio avaliado como baixo: ideação passiva esporádica, sem plano ou intenção.

Plano:

Continuar ativação comportamental com foco em atividades de domínio. Introduzir registro de pensamentos automáticos (RPD) com identificação de distorções cognitivas. Psicoeducação sobre autocrítica e padrão de ruminação. Reavaliação com PHQ-9 em 2 semanas.


Quando Encaminhar ao Psiquiatra

O encaminhamento ao psiquiatra é indicado quando:

  • Risco de suicídio moderado a alto, com ou sem plano
  • Episódio grave com sintomas psicóticos (delírios, alucinações)
  • Ausência de resposta à psicoterapia após 8-12 sessões
  • Sintomas incapacitantes que impedem a participação ativa na psicoterapia
  • Suspeita de bipolaridade (histórico de hipomania ou mania)
  • Depressão puerperal (risco para mãe e bebê)
  • Comorbidade com uso de substâncias que complique o quadro

A nota de encaminhamento deve conter: hipótese diagnóstica, instrumentos utilizados (PHQ-9, DASS-21), sessões realizadas e resposta ao tratamento.


Documentação e Prontuário

O prontuário do paciente com TDM deve conter:

  • Anamnese completa com histórico de episódios anteriores
  • Resultados do PHQ-9 com datas de aplicação
  • Avaliação de risco de suicídio documentada em cada sessão
  • Plano terapêutico com objetivos e abordagem
  • Notas de evolução por sessão (DAP ou BIRP)
  • Registro de encaminhamentos realizados

O PsiNota AI gera automaticamente notas clínicas DAP e BIRP ao final de cada sessão, com campo específico para avaliação de risco e integração com o histórico de PHQ-9 do paciente.

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