Psicólogo aplicando escala de ansiedade em paciente com transtorno de pânico em consultório
Quadros ClínicosAtualizado em maio de 20267 min de leitura

Síndrome do Pânico: Critérios CID-11, Avaliação e Protocolo TCC

Critérios diagnósticos do transtorno de pânico segundo CID-11 e DSM-5, diagnóstico diferencial e protocolo TCC com exposição interoceptiva validado por evidência.

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Resposta rápida

Transtorno de pânico (CID-11: 6B01; CID-10: F41.0) caracteriza-se por ataques de pânico recorrentes e inesperados seguidos por pelo menos um mês de preocupação persistente com novos ataques ou mudança comportamental significativa. O ataque é definido como surto abrupto de medo intenso que atinge pico em até 10 minutos, com 4 ou mais sintomas físicos (palpitações, falta de ar, tontura, parestesias) e cognitivos (medo de morrer, perder controle). O tratamento de primeira linha é TCC com exposição interoceptiva, com taxas de resposta de 70–90% em ensaios clínicos. Em casos graves ou com agorafobia, combina-se com farmacoterapia (ISRS).

O paciente entra no consultório dizendo que achou que ia morrer. Foi ao pronto-socorro, fez eletrocardiograma, dosou troponina, recebeu alta com um diagnóstico de "crise de ansiedade" e a recomendação genérica de "procurar um psicólogo". Está apavorado com a possibilidade de o ataque voltar — e ele inevitavelmente volta.

Esse roteiro se repete milhares de vezes por mês nas emergências brasileiras. O transtorno de pânico é um dos quadros mais frequentes na clínica psicológica — e também um dos que melhor respondem ao tratamento estruturado. Este guia consolida critérios diagnósticos, avaliação e o protocolo TCC com mais evidência.

Critérios diagnósticos: CID-11 e DSM-5

CID-11 (6B01 — Transtorno de pânico)

A vigência oficial da CID-11 no Brasil está prevista para janeiro de 2027 (veja preparação para a transição). Critérios principais:

  • Ataques recorrentes e inesperados (não totalmente atribuíveis a gatilho identificável)
  • Pelo menos um ataque seguido de um mês ou mais de preocupação persistente com novos ataques ou de mudança comportamental significativa (evitação, busca de segurança)
  • Não atribuível a substância, condição médica ou outro transtorno mental

DSM-5-TR (300.01)

Critérios sobrepostos com a CID-11, com especificadores adicionais para a presença ou não de agorafobia (300.22).

Componentes do ataque de pânico

Surto abrupto de medo ou desconforto intenso que atinge pico em minutos, durante o qual ocorrem 4 ou mais dos 13 sintomas:

Sintomas físicos:

  1. Palpitações ou taquicardia
  2. Sudorese
  3. Tremores
  4. Sensação de falta de ar
  5. Sensação de sufocamento
  6. Dor ou desconforto torácico
  7. Náusea ou desconforto abdominal
  8. Tontura ou sensação de desmaio
  9. Calafrios ou ondas de calor
  10. Parestesias (formigamento, dormência)

Sintomas cognitivos: 11. Desrealização ou despersonalização 12. Medo de perder o controle ou enlouquecer 13. Medo de morrer

Diagnóstico diferencial

A avaliação cuidadosa exclui outras causas de sintomas semelhantes:

CondiçãoDiferencial principal
Cardiopatia (arritmia, isquemia)ECG, ecocardiograma, sinais vitais sob estresse — sempre encaminhar para clínico/cardiologista no primeiro ataque
HipertireoidismoTSH e T4 livre — pode mimetizar ansiedade
FeocromocitomaRaro mas grave — catecolaminas urinárias se suspeita
HipoglicemiaGlicemia capilar em vigência de sintomas
Intoxicação por cafeína ou estimulantesAnamnese detalhada de uso
Abstinência de álcool ou BZDHistórico de uso
TAGAnsiedade contínua e generalizada, não picos abruptos
Fobia socialAtaques restritos a situações sociais avaliativas
TEPTAtaques desencadeados por gatilhos traumáticos específicos
TOCAtaques relacionados a obsessões ou impedimento de compulsão
DepressãoPode coexistir — comorbidade em 50–60%

Avaliação clínica

Instrumentos úteis

  • PDSS (Panic Disorder Severity Scale) — 7 itens, gradua gravidade global, sensível a mudança
  • API (Anxiety Sensitivity Index) — mede medo das sensações de ansiedade, marcador prognóstico
  • GAD-7 — útil para avaliar componente ansioso geral
  • Diário de ataques — registra data, hora, gatilho percebido, sintomas, duração, intensidade (0–10)

Avaliação funcional

Investigue:

  • Padrão evolutivo: primeiro ataque, evolução, fatores precipitantes (estresse, mudanças, perdas)
  • Sintomas predominantes: físicos vs. cognitivos predominantes orientam o foco da intervenção
  • Comportamentos de segurança: sair sempre com remédio na bolsa, evitar ficar sozinho, sentar perto da saída
  • Evitação fóbica: lugares onde tem medo de novo ataque (agorafobia em desenvolvimento)
  • Impacto funcional: trabalho, relacionamentos, autonomia
  • Comorbidades: depressão, uso de substâncias, outros transtornos ansiosos

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Protocolo TCC: o padrão-ouro

O protocolo TCC para transtorno de pânico (Barlow, Craske) tem evidência consistente desde os anos 1990 e é primeira linha em todas as diretrizes internacionais (APA, NICE, OMS).

Estrutura típica (10–14 sessões)

Sessões 1–2 — Avaliação e psicoeducação

  • Avaliação completa, contrato terapêutico, hipóteses
  • Psicoeducação: modelo cognitivo do pânico — a "bola de neve" da hiperventilação, a interpretação catastrófica de sensações normais, o "medo do medo" como núcleo
  • Diário de ataques iniciado

Sessões 3–4 — Reestruturação cognitiva

  • Identificação de pensamentos automáticos durante ataques ("vou morrer", "vou enlouquecer", "vou ter um infarto")
  • Reestruturação usando questionamento socrático
  • Evidências a favor e contra; experimentos comportamentais

Sessões 5–8 — Exposição interoceptiva

A técnica central. Provocar deliberadamente as sensações físicas temidas:

ExercícioSensação induzidaDuração
Hiperventilação voluntáriaTaquicardia, tontura, parestesias60 segundos
Respiração em canudoFalta de ar, sufocamento2–3 minutos
Girar em cadeiraTontura, desrealização30–60 segundos
Subir e descer escadaTaquicardia, falta de ar2 minutos
Olhar fixamente para ponto na paredeDesrealização90 segundos
Aquecimento térmico (luva quente)Ondas de calor, sudorese5 minutos

Sequência: psicólogo demonstra → paciente faz em sessão com supervisão → tarefa de casa diária → progressão na hierarquia.

Sessões 9–12 — Exposição in vivo (se agorafobia)

Hierarquia de situações evitadas: do mais fácil (caminhar até a esquina sozinho) ao mais difícil (metrô em horário de pico). Exposição prolongada (até habituação), sem comportamentos de segurança.

Sessões 13–14 — Prevenção de recaída e alta

  • Identificação de gatilhos para retorno de sintomas
  • Plano escrito de manejo: o que fazer ao primeiro sinal de retorno
  • Reforço das técnicas aprendidas
  • Combinação para sessões de booster se necessário

Manejo do ataque agudo em sessão

Eventualmente o ataque ocorre dentro do consultório. Conduta:

  1. Validar e normalizar — "isso é um ataque de pânico, vai passar em alguns minutos, você está seguro"
  2. Respiração diafragmática lenta — guiar respiração: 4s inspiração, 6s expiração
  3. Ancoragem sensorial — pedir para descrever 5 objetos visíveis, 4 sons, 3 texturas
  4. Não eliminar a sensação — o objetivo terapêutico é tolerar, não fugir
  5. Após o ataque — debriefing: o que pensou, o que sentiu, o que aconteceu de fato (você não morreu, não enlouqueceu)

Documentação no prontuário

Para cada sessão, registrar (formato DAP ou BIRP):

  • Número e características dos ataques na semana (intensidade, duração, gatilhos identificados)
  • Pontuação em escala de ansiedade utilizada
  • Exposições interoceptivas realizadas em sessão (qual, duração, SUD início/fim)
  • Exposições in vivo da semana (situação, tempo, SUD, comportamentos de segurança usados)
  • Evolução do quadro vs. baseline
  • Plano para a próxima semana

Critérios de melhora e alta

  • Ausência de ataques inesperados por 4–8 semanas consecutivas
  • Capacidade de tolerar sensações físicas sem reação fóbica
  • Retomada de atividades antes evitadas
  • Redução de comportamentos de segurança
  • PDSS ≤ 8 (faixa de remissão)

Quando encaminhar para psiquiatra

  • Ataques frequentes e severos com comprometimento funcional grave
  • Comorbidade com depressão maior, bipolar, TOC ou psicose
  • Ideação suicida
  • Resposta parcial após 12 sessões de TCC bem conduzida
  • Pedido explícito do paciente

A combinação TCC + ISRS é a primeira escolha para casos moderados a graves, com evidência consistente.

Conclusão

Poucos quadros em psicologia clínica têm protocolo tão bem definido e taxa de resposta tão alta quanto o transtorno de pânico bem tratado. O domínio da TCC com exposição interoceptiva, a articulação com clínico/psiquiatra para descarte de causas orgânicas e o manejo cuidadoso da agorafobia compõem uma intervenção que costuma libertar o paciente em 3–4 meses do que parecia uma sentença vitalícia. O PsiNota AI estrutura registros de sessão com seções específicas para diário de ataques, SUD pré/pós-exposição e progressão na hierarquia.


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