Clínica Prática9 min de leitura

Crise Psicológica: Como Intervir, Avaliar Risco e Documentar em Situações de Emergência

Guia prático para intervenção em crise: primeiros socorros psicológicos, avaliação de risco (C-SSRS), plano de segurança, quando acionar emergência e como documentar no prontuário.

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Resposta rápida

Crise psicológica é um estado agudo de desequilíbrio emocional em que a pessoa esgota seus recursos de enfrentamento habituais. A intervenção em crise envolve: acolhimento imediato, avaliação estruturada de risco (incluindo risco de suicídio), primeiros socorros psicológicos, elaboração do plano de segurança, e documentação precisa de toda a conduta. Nem toda crise requer acionar a emergência, mas o psicólogo precisa saber exatamente quando e como fazê-lo.

A crise chega sem avisar. No meio de uma sessão de rotina, o paciente começa a chorar de forma incontrolável e diz que não consegue mais continuar. Ou você recebe uma mensagem às 23h de alguém que acompanha há meses, dizendo que está com o frasco de remédio na mão. Ou uma pessoa liga para seu consultório pela primeira vez no estado de maior desespero de sua vida.

Cada psicólogo clínico, independentemente de abordagem ou especialidade, vai encontrar crise. A questão não é se vai acontecer, mas se você terá o protocolo claro para agir com competência e segurança.

O que é crise psicológica

Crise psicológica é um estado transitório de desequilíbrio emocional e cognitivo em que o indivíduo enfrenta um problema que excede seus recursos de enfrentamento habituais, resultando em sofrimento intenso e incapacidade funcional temporária.

A crise tem algumas características universais:

  • Início agudo: há um evento ou acúmulo que precipita
  • Limitação temporal: crises tendem a se resolver em horas a dias, não semanas
  • Ponto de desequilíbrio: a pessoa não consegue usar seus recursos habituais
  • Potencial de crescimento: crises resolvidas bem podem fortalecer recursos de enfrentamento

Tipos de crise:

Crise situacional: desencadeada por evento externo (separação, demissão, luto, acidente, violência). A pessoa tinha equilíbrio antes do evento.

Crise existencial: confronto com questões fundamentais de sentido, identidade, mortalidade. Frequente em transições de vida (meia-idade, aposentadoria, vazio do ninho).

Crise psiquiátrica: crise com base em transtorno mental descompensado — episódio maníaco, psicose aguda, transtorno dissociativo em episódio grave. Geralmente requer suporte multiprofissional e pode exigir internação.

Avaliação imediata: o que verificar primeiro

Quando um paciente chega em crise, a avaliação deve ser rápida e estruturada:

1. Segurança imediata A pessoa está em local seguro? Há acesso a meios letais (armas, medicamentos em excesso)? Há alguém que pode estar ameaçando a pessoa?

2. Nível de consciência e orientação A pessoa está orientada (sabe onde está, que dia é, quem você é)? Há sinais de intoxicação por substâncias? Há comportamento desorganizado que sugira estado psicótico?

3. Risco de suicídio Sempre avaliar especificamente. A presença de crise aumenta o risco. Use a escala Columbia C-SSRS para estruturar a avaliação:

  • Há ideação passiva? ("Preferia estar morto")
  • Há ideação ativa? ("Quero me matar")
  • Há plano? ("Vou tomar os comprimidos")
  • Há intenção? ("Vou fazer isso hoje")
  • Houve tentativas recentes?

4. Risco para terceiros Mais raro, mas crítico: a pessoa está expressando intenção de machucar alguém específico? Há uma vítima identificada?

5. Suporte disponível Há alguém com quem a pessoa pode estar? Família, amigos? O isolamento aumenta o risco.

Primeiros Socorros Psicológicos (PSP)

Os Primeiros Socorros Psicológicos são a intervenção de primeira linha recomendada pela OMS e OPS para situações de crise e desastres. O modelo estrutura-se em cinco princípios:

1. Segurança

Criar condições físicas e psicológicas de segurança. Isso significa:

  • Verificar o ambiente físico da pessoa
  • Reduzir exposição a estímulos estressores quando possível
  • Criar espaço de calma e privacidade para a conversa

2. Calma

Ajudar a pessoa a regular a ativação fisiológica. Técnicas:

  • Respiração diafragmática lenta (4 segundos inspiração, 4 segundos expiração)
  • Ativação sensorial: "Coloca os pés no chão. Sente o chão sob seus pés."
  • Contato físico se apropriado e consentido (toque no ombro, mão na mão)
  • Tom de voz calmo e pausado do terapeuta

3. Conexão

Facilitar conexão com rede de suporte. Perguntar:

  • Há alguém que a pessoa quer contatar agora?
  • Quem pode estar com ela nas próximas horas?
  • Há serviços de suporte que ela conhece?

4. Autoeficácia

Resgatar o senso de que a pessoa tem recursos, mesmo que pareça que não tem agora. Técnicas:

  • Lembrar de crises anteriores que foram atravessadas
  • Identificar qualquer pequena ação que a pessoa pode tomar agora
  • Validar a capacidade de ter buscado ajuda

5. Esperança

Cultivar perspectiva de que a crise é transitória. Não falsas promessas — mas realismo esperançoso:

  • "Muitas pessoas que passaram por situações como essa conseguiram atravessar"
  • "Crises são intensas, mas temporárias"
  • "Podemos descobrir juntos o que vai ajudar"

Plano de Segurança: a ferramenta essencial

O Plano de Segurança Stanley-Brown é superior ao "contrato de não-suicídio" — que a pesquisa mostra não ter utilidade clínica e pode dar falsa sensação de segurança ao terapeuta. O plano de segurança é colaborativo, concreto e personalizado.

Os 6 elementos:

1. Sinais de alerta pessoais O que a pessoa nota em si mesma quando está entrando em crise: "Fico me isolando", "Começo a rever fotos antigas", "Paro de dormir". Deve ser da própria fala do paciente, não genérico.

2. Estratégias internas de coping O que a pessoa pode fazer sozinha para se distrair ou se regular: "Ouvir determinada playlist", "Fazer uma caminhada", "Tomar banho quente". Coisas que já funcionaram antes.

3. Distrações sociais Pessoas e contextos que distraem sem necessidade de falar sobre a crise: "Ir para a casa da amiga X", "Ficar com minha irmã". Não precisam saber que há uma crise.

4. Pessoas de confiança para pedir ajuda Nomes e contatos de pessoas que sabe que vão atender: mãe, melhor amigo, parceiro. Listar com número de telefone — a pessoa em crise não deve precisar procurar o número.

5. Profissionais e serviços de emergência

  • Nome e número do terapeuta (e protocolo de como contatar em crise)
  • CVV: 188 (24 horas)
  • CAPS de referência
  • SAMU: 192 / UPA mais próxima

6. Tornar o ambiente mais seguro Redução de acesso a meios letais: "Dar os remédios para a mãe guardar", "Pedir para o marido guardar a arma fora de casa". Este passo é frequentemente negligenciado e é um dos mais efetivos.

Como registrar no prontuário:

"Plano de segurança elaborado em conjunto com a paciente. Cópia fornecida ao paciente e conteúdo registrado no prontuário. Principais elementos: sinais de alerta (isolamento, ruminação noturna); estratégias internas (música, caminhada); contatos de apoio (mãe e amiga Y, com números confirmados); serviços: CVV 188, CAPS [endereço], número do consultório. Paciente devolveu medicamentos à mãe para guarda — confirmado."

Quando acionar a rede de emergência

Acionar SAMU (192):

  • Tentativa de suicídio em curso ou recente com risco de morte
  • Intoxicação medicamentosa ou por substâncias
  • Agitação psicomotora grave com auto ou heteroagressão
  • Psicose aguda com comportamento perigoso e desorganizado

Acionar CAPS de crise / UPA:

  • Risco de suicídio alto sem iminência imediata
  • Descompensação psiquiátrica sem condições de acompanhamento ambulatorial
  • Pessoa sem suporte familiar ou social mínimo

Contato com familiar/responsável:

  • Quando há risco iminente e o paciente não pode garantir sua segurança
  • Quando o paciente é menor de idade
  • Quando o paciente está incapacitado de consentir

Registre toda ação tomada: hora exata do contato, com quem falou, o que foi comunicado, resposta recebida.

Documentação de crise: proteja o paciente e a você

A nota de crise é um dos documentos mais importantes do prontuário — tanto clinicamente quanto juridicamente. Ela demonstra que o psicólogo fez uma avaliação competente e tomou condutas proporcionais ao risco.

O que registrar:

  1. Horário: hora de início e fim do contato (presencial ou remoto)
  2. Precipitante: o que desencadeou a crise
  3. Avaliação de risco: resultado da avaliação de suicídio (ideação? plano? intenção? acesso a meios?), escore Columbia se aplicado
  4. Condutas tomadas: plano de segurança elaborado/revisado, quem foi contatado, que orientações foram dadas
  5. Próximos passos: próxima sessão agendada, encaminhamento feito, monitoramento planejado

Exemplo de nota:

"Contato presencial de emergência realizado às 14h30, duração 80 min. Paciente procurou o consultório sem agendamento após término de relacionamento. Apresentava-se em estado de agitação, com choro intenso e afirmava que 'não adiantava mais'. Avaliação de risco de suicídio (Columbia C-SSRS): ideação ativa sem plano específico (nível 3), sem tentativas prévias, sem intenção. Fator protetivo: filha menor de idade. Conduta: PSP aplicado, regulação com respiração. Plano de segurança revisado e atualizado — paciente ligou para irmã que veio buscá-la. Orientada a ligar para o CVV se necessário (188). Sessão de seguimento agendada para amanhã às 10h. Risco avaliado como moderado — sem critérios para internação."

Atendimento de crise por teleconsulta

A crise em teleconsulta exige protocolos específicos:

Antes de começar a atender online: tenha sempre registrado no prontuário o nome completo, número de telefone e endereço do paciente. Se necessário, confirme no início de cada sessão.

Durante a sessão em crise: mantenha a câmera ligada para observar o estado do paciente. Avalie se há alguém na casa.

Se o risco for alto:

  1. Acione o familiar/responsável enquanto mantém o paciente em linha
  2. Ligue para o SAMU fornecendo o endereço do paciente
  3. Mantenha o contato até chegar o suporte ou até o risco reduzir

Documente: que era teleconsulta, que o endereço estava confirmado, que suporte foi acionado.

Autocuidado do terapeuta após sessões de crise

Crises são emocionalmente intensas para o terapeuta. Sinais de que você precisa de suporte:

  • Pensamentos intrusivos sobre o caso fora do horário de trabalho
  • Dificuldade de dormir
  • Hipervigilância em relação a outros pacientes
  • Sensação de responsabilidade excessiva pela segurança do paciente

O que fazer:

  • Supervisão ou interconsulta o mais rápido possível após uma crise grave
  • Debriefing com colega de confiança (sem identificar o paciente)
  • Análise ou terapia pessoal — essencial para quem trabalha com casos de alta intensidade regularmente

A intervenção em crise é uma das competências mais desafiadoras e mais importantes da prática clínica. Não é possível eliminar todos os riscos — mas é possível fazer uma avaliação competente, agir proporcionalmente, envolver os recursos necessários, e documentar tudo com precisão. Isso é o que o paciente precisa e o que a ética profissional exige.

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