Clínica Prática11 min de leitura

Avaliação de Risco de Suicídio: Como Conduzir, Documentar e Protocolo de Segurança

Guia completo sobre avaliação de risco de suicídio: escala Columbia C-SSRS, plano de segurança com os 6 elementos Stanley & Brown, estratificação do risco, obrigações legais e como documentar adequadamente no prontuário clínico.

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Resposta rápida

O psicólogo avalia o risco de suicídio por meio de entrevista clínica estruturada e instrumentos validados como a escala Columbia C-SSRS, investigando ideação (passiva e ativa), plano, intenção e acesso a meios letais. A avaliação resulta em estratificação do risco (baixo, moderado, alto) e conduta proporcional — desde o plano de segurança até o encaminhamento para internação imediata.

O suicídio é um dos temas mais desafiadores e clinicamente urgentes que o psicólogo encontra na prática. No Brasil, são mais de 14 mil mortes por suicídio por ano (IBGE/OPAS), com tentativas estimadas em 10 a 20 vezes esse número. Todo psicólogo clínico, independente da especialidade ou abordagem, precisa saber avaliar risco de suicídio de forma estruturada, documentar corretamente e conduzir com segurança.

Este guia apresenta o protocolo clínico baseado em evidências: da epidemiologia à documentação, passando pela escala Columbia C-SSRS e pelo plano de segurança Stanley-Brown.


Epidemiologia: por que todo psicólogo precisa saber avaliar

Dados que contextualizam a urgência clínica:

  • 14.000+ mortes por suicídio por ano no Brasil (3ª causa de morte entre 15–29 anos)
  • 10 a 20 tentativas para cada morte — a maioria das pessoas que tentam suicídio tem contato com algum profissional de saúde nos 30 dias anteriores
  • Fatores de risco mais prevalentes na população brasileira: transtorno depressivo maior, alcoolismo, histórico de tentativas anteriores, isolamento social, violência doméstica, desemprego
  • Sazonalidade: picos em primavera e início de verão (dados consistentes internacionalmente)
  • Subnotificação: estimativas sugerem que os dados oficiais representam entre 50% e 70% das mortes reais por suicídio no Brasil

O psicólogo tem papel estratégico na prevenção: é frequentemente o primeiro (ou único) profissional com quem o paciente fala sobre ideação.


Terminologia correta: o que dizer (e o que não dizer)

Usar a terminologia correta é fundamental para documentação precisa e para comunicação com a equipe:

Termo corretoEvitar
Comportamento suicida"Suicídio frustrado"
Tentativa de suicídio"Tentativa de suicídio mal-sucedida"
Morte por suicídio"Se matou", "cometeu suicídio"
Ideação suicida"Ideia de acabar com tudo" (ambíguo)
Automutilação sem intenção suicida"Tentativa de suicídio" (quando não há intenção)

Diferença crítica entre automutilação e tentativa de suicídio: automutilação (cutting, queimaduras) pode não ter intenção de morrer — é comportamento de regulação emocional. Avaliar a intenção é parte da avaliação de risco. Tratar automutilação como tentativa pode gerar intervenções desnecessárias; não avaliar adequadamente pode subestimar risco real.


Escala Columbia C-SSRS: estrutura e aplicação

A Columbia Suicide Severity Rating Scale (C-SSRS) é o instrumento mais validado internacionalmente para avaliação estruturada de risco de suicídio. É gratuita, de domínio público e existe em versão validada para o português brasileiro.

Domínios avaliados

A C-SSRS avalia dois eixos principais:

1. Intensidade da Ideação Suicida

ItemO que avalia
Desejo de estar morto"Você desejou estar morto ou adormecer e não acordar?"
Ideação não-específica"Você teve pensamentos de se matar, sem saber como?"
Ideação com método (sem plano)"Você pensou em se matar e tinha ideia de como faria?"
Ideação com intenção de agir"Você teve pensamentos de se matar e, em algum momento, tinha alguma intenção de agir?"
Ideação com plano e intenção"Você planejou como faria isso e teve alguma intenção de executar esse plano?"

2. Comportamento Suicida

Avalia se houve tentativas de suicídio, comportamento preparatório (ex: reunir meios, despedir-se), automutilação sem intenção suicida.

Como aplicar

Aplique em conversa direta, com linguagem clara e sem rodeios. Um erro comum é usar linguagem indireta por desconforto do próprio terapeuta — isso reduz a validade da avaliação.

Exemplo de abertura:

"Algumas das coisas que você trouxe hoje me fazem querer conversar sobre algo importante. Preciso te perguntar diretamente sobre pensamentos de se machucar. Isso é parte do meu cuidado com você, não uma acusação."

Interpretação e estratificação do risco

Nível de riscoCritérios
BaixoIdeação passiva apenas (desejo de estar morto), sem plano ou intenção; sem histórico de tentativas; boa rede de suporte
ModeradoIdeação ativa sem plano definido; histórico de tentativas distantes; fatores de risco presentes mas não agudos
AltoIdeação ativa com plano e intenção; tentativa recente; acesso a meios letais; isolamento severo; recusa de ajuda

Avaliação clínica não-estruturada: o que perguntar

Mesmo sem a C-SSRS, toda avaliação de risco deve cobrir estes domínios:

Ideação

  • "Você teve pensamentos de se machucar ou de se matar?"
  • "Com que frequência esses pensamentos aparecem? Duram quanto tempo?"

Plano

  • "Você pensou em como faria isso?"
  • "Você tem acesso a esse meio?" (arma de fogo, medicamentos, etc.)

Intenção

  • "Você tem vontade de agir nesse pensamento?"
  • "O que te impede de agir?"

Histórico

  • "Você já tentou se machucar antes? O que aconteceu?"
  • "Alguém próximo de você morreu por suicídio?"

Fatores protetores

  • "Quem você chamaria se as coisas piorassem muito?"
  • "O que te faz continuar?" (razões para viver)

O mito da indução: perguntar diretamente não gera ideação. Pelo contrário — nomeá-la alivia o isolamento do paciente e abre espaço para intervenção. A omissão da avaliação, sim, representa negligência clínica.


Fatores de risco e fatores protetores

Principais fatores de risco

Psiquiátricos: transtorno depressivo maior, transtorno bipolar (especialmente fase mista), esquizofrenia, abuso de substâncias, TEPT, transtorno de personalidade borderline

Históricos: tentativa prévia de suicídio (fator de risco mais forte), hospitalização psiquiátrica, histórico familiar de suicídio

Situacionais: perda recente significativa (emprego, relacionamento, luto), diagnóstico de doença grave, violência doméstica, isolamento social, acesso a meios letais

Demográficos: sexo masculino (maior letalidade), idade (pico em adultos jovens e idosos), pertencimento a grupos marginalizados (LGBTfobia, racismo)

Principais fatores protetores

  • Vínculos familiares e sociais sólidos
  • Suporte religioso ou espiritual ativo
  • Responsabilidade com filhos ou dependentes
  • Acesso e engajamento em tratamento
  • Razões para viver identificáveis e verbalizadas
  • Ausência de acesso a meios letais

Documente ambos — fatores de risco e protetores — na nota clínica. A ausência de protetores em paciente com múltiplos fatores de risco é um sinal de alarme.

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Plano de segurança: os 6 elementos Stanley-Brown

O Plano de Segurança Stanley-Brown é a intervenção baseada em evidências recomendada pela American Association of Suicidology e amplamente adotada no Brasil. Diferente do "contrato de não-suicídio" (sem evidências de eficácia), o plano de segurança é colaborativo, concreto e personalizado.

Os 6 elementos do plano

1. Sinais de alerta pessoais Quais pensamentos, imagens, humor, situações ou comportamentos indicam que uma crise pode estar começando?

Exemplo: "Quando começo a me isolar e paro de responder mensagens"

2. Estratégias internas de enfrentamento O que o paciente pode fazer sozinho, sem contato com ninguém, para distrair-se da ideação?

Exemplo: "Ouvir a playlist que criei, sair para caminhar 20 minutos, lavar a louça"

3. Pessoas e ambientes sociais que ajudam a distrair Não para pedir ajuda — apenas para estar com outras pessoas:

Exemplo: "Ir ao café com Wi-Fi perto de casa, ligar para o irmão sobre futebol"

4. Pessoas a quem pode pedir ajuda Quem o paciente pode contatar e dizer que está passando por momento difícil?

Exemplo: "Minha amiga Carla — ela sabe sobre meu tratamento"

5. Profissionais e serviços de emergência Inclua sempre:

  • Nome e contato do psicólogo (e substituto em caso de ausência)
  • Psiquiatra (se houver)
  • CVV: 188 (24h, gratuito)
  • SAMU: 192
  • UPA/CAPS mais próximos

6. Tornar o ambiente seguro — restrição de acesso a meios Este é o elemento mais diretamente relacionado à redução de mortalidade. Identifique meios letais acessíveis e planeje como removê-los ou reduzir o acesso:

Exemplo: "Deixar remédios com a mãe por enquanto"; "Pedir ao companheiro que guarde a arma fora de casa"

O plano deve ser escrito (não apenas verbal), assinado pelo paciente e pelo psicólogo, e uma cópia deve ficar com o paciente. Uma cópia deve constar no prontuário.


Estratificação do risco e conduta proporcional

NívelConduta
BaixoElaborar plano de segurança; psicoeducação sobre sinais de alerta; agendamento de sessão de seguimento em até 1 semana; contato de crise disponível
ModeradoPlano de segurança reforçado; envolver rede de suporte (com consentimento); considerar aumento de frequência de sessões; avaliar encaminhamento para psiquiatria; ligar para checar bem-estar entre sessões
AltoEncaminhamento imediato para urgência psiquiátrica; contato com familiar responsável; acionamento do SAMU se recusa de encaminhamento e risco iminente; internação voluntária ou involuntária conforme necessidade

Sobre o contrato de não-suicídio: a literatura atual desaconselha o uso isolado desse recurso. Ele pode gerar falsa sensação de segurança no terapeuta e inibir o paciente de comunicar piora do risco. O plano de segurança substitui com vantagem.


Documentação imediata: o que registrar na nota clínica

A documentação adequada de uma avaliação de risco protege o paciente — e o psicólogo ética e juridicamente. Registre na nota clínica:

  • Horário exato da sessão (não só a data)
  • Queixa e contexto que motivaram a avaliação de risco
  • Resultado da avaliação: instrumento utilizado (ex: C-SSRS), resultado de cada domínio avaliado (ideação, plano, intenção, comportamento), e estratificação do risco (baixo/moderado/alto)
  • Fatores de risco e protetores identificados
  • Condutas tomadas: elaboração do plano de segurança, contato com familiar (com consentimento ou por risco iminente), encaminhamento, contato com psiquiatra
  • Quem foi informado (familiar, SAMU, equipe)
  • Plano para seguimento: próxima sessão agendada, intervalo de contato telefônico

Exemplo de registro em nota DAP:

Dados: Paciente em sessão individual 10/06/2026 às 14h30. Relatou aumento da ideação suicida na última semana — pensamentos diários de não querer acordar (ideação passiva) e, na noite de 08/06, pensamento de ingestão de medicamentos (ideação ativa sem plano definido). Nega tentativas prévias.

Avaliação: C-SSRS aplicada. Ideação tipo 3 (pensamento com método, sem plano organizado). Fatores de risco presentes: episódio depressivo moderado-grave (BDI-II = 31), isolamento social recente, término de relacionamento há 3 semanas. Fatores protetores: vínculo terapêutico ativo, mãe presente e informada, sem acesso a meios letais no domicílio. Risco estratificado como moderado.

Plano: Plano de segurança Stanley-Brown elaborado e assinado pela paciente. Cópia entregue; cópia no prontuário. Mãe contatada na sessão (com consentimento da paciente) e orientada sobre sinais de alerta. Encaminhamento para psiquiatra agendado para 12/06. Sessão de seguimento agendada para 11/06/2026. Paciente orientada a ligar para CVV (188) em caso de piora antes da próxima sessão.


Obrigações legais: quando quebrar o sigilo

O Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP, Resolução 10/2005) estabelece que o sigilo pode ser quebrado quando há risco iminente e grave à vida do paciente ou de terceiros. Situações que justificam:

  • Risco alto com recusa de encaminhamento para urgência
  • Paciente que abandona a sessão em crise aguda
  • Informações sobre plano concreto com acesso a meios letais

O que fazer:

  1. Comunicar a familiar próximo ou responsável
  2. Acionar SAMU (192) se risco imediato
  3. Registrar na nota clínica a decisão de quebrar o sigilo com justificativa detalhada

A quebra do sigilo sem registro adequado pode gerar processo ético. Com registro claro e fundamentado, o psicólogo demonstra responsabilidade clínica e ética.


Sessões de seguimento pós-avaliação de risco

Após uma sessão de avaliação de risco, o acompanhamento próximo é essencial:

  • Risco baixo: próxima sessão em até 1 semana; contato telefônico breve entre sessões
  • Risco moderado: sessão em 2–3 dias; checar plano de segurança no início de cada sessão
  • Pós-crise/pós-tentativa: frequência maior de sessões nas primeiras 4 semanas; avaliação contínua do risco em cada sessão

A cada sessão de seguimento, reavalie os fatores de risco, o engajamento com o plano de segurança e a resposta ao tratamento. Atualize o plano conforme necessário.


Autocuidado do terapeuta após sessão de crise

Trabalhar com pacientes em crise suicida é emocionalmente exigente. O impacto no terapeuta é real e precisa ser manejado:

  • Supervisão: leve o caso para supervisão individual ou de grupo o mais breve possível
  • Debriefing: converse com um colega de confiança sobre a sessão (sem identificar o paciente)
  • Autocuidado ativo: identifique seus próprios sinais de alerta de esgotamento emocional relacionado ao trabalho com crise

Psicólogos que atendem pacientes de risco têm maior probabilidade de vivenciar luto profissional em caso de morte por suicídio de um paciente. Ter supervisão regular é proteção profissional — não luxo.


O PsiNota AI e a identificação de alertas de risco

No PsiNota AI, o sistema de IA analisa automaticamente o conteúdo das notas de sessão e sinaliza alertas clínicos — incluindo menções a ideação suicida, isolamento crescente e mudanças abruptas de comportamento. Isso não substitui a avaliação clínica, mas garante que nenhuma pista passe despercebida em meio à documentação do dia a dia.

O prontuário eletrônico integrado permite registrar o plano de segurança diretamente no perfil do paciente, com data de elaboração e histórico de atualizações — garantindo que a informação esteja acessível em todas as sessões futuras.

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