O TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) é um dos diagnósticos mais buscados na avaliação psicológica — e um dos que mais exigem rigor metodológico e documentação precisa. A demanda por avaliação tem crescido ano a ano, impulsionada pelo maior reconhecimento do TDAH em adultos e pelo aumento de diagnósticos tardios.
TDAH no CID-11: classificação e especificadores
No CID-11, o TDAH é classificado como 6A05, com três especificadores clínicos:
- 6A05.0 — Apresentação com predomínio de desatenção
- 6A05.1 — Apresentação com predomínio de hiperatividade-impulsividade
- 6A05.2 — Apresentação combinada (critérios para ambos)
O diagnóstico exige sintomas presentes em pelo menos dois contextos diferentes (casa, escola, trabalho) e com prejuízo funcional real — não apenas presença de sintomas isolados.
A transição do CID-10 para o CID-11 eliminou o subtipo "predominantemente hiperativo" como entidade separada e unificou o espectro. Laudos emitidos a partir de 2026 devem usar a codificação CID-11.
O papel do psicólogo na avaliação de TDAH
O psicólogo realiza a avaliação psicológica — parte central do processo diagnóstico multidisciplinar. Isso inclui:
- Anamnese detalhada com paciente (e responsáveis, no caso de crianças)
- Aplicação de instrumentos psicológicos padronizados e aprovados pelo SATEPSI
- Avaliação das funções cognitivas: atenção, memória de trabalho, controle inibitório, velocidade de processamento
- Integração dos dados em laudo psicológico fundamentado com hipótese diagnóstica
- Devolutiva ao paciente e família com orientações práticas
O psicólogo não fecha o diagnóstico sozinho — TDAH é diagnóstico multidisciplinar. O laudo contribui de forma decisiva para a avaliação neurológica ou psiquiátrica que confirma o diagnóstico.
Instrumentos validados para avaliação de TDAH
Para crianças e adolescentes
Conners CPRS-R (pais) e CTRS-R (professores): escalas de sintomas de TDAH respondidas pelos dois contextos principais. Aprovadas pelo SATEPSI. Indispensáveis na avaliação infantil.
SNAP-IV: amplamente usado em pesquisa clínica e na prática. Versão em português validada. Rápida aplicação.
CBCL (Child Behavior Checklist): avaliação ampla de problemas de comportamento, internalizantes e externalizantes. Útil para detectar comorbidades.
WISC-V: avaliação de inteligência. O perfil de subtestes (especialmente índice de velocidade de processamento e memória de trabalho) auxilia na identificação de padrões compatíveis com TDAH.
Para adultos
CAARS (Conners Adult ADHD Rating Scales): versão de autorrelato e observador para TDAH em adultos. Disponível em português.
BAARS-IV (Barkley Adult ADHD Rating Scale): avalia sintomas atuais e retrospectivos da infância, essenciais para confirmar o critério de início antes dos 12 anos.
Testes de atenção contínua e funções executivas: como o TAPI-2 e bateria de funções executivas, para objetivar os déficits atencionais.
Dica: Todos os instrumentos utilizados devem estar aprovados pelo SATEPSI (Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos do CFP). Verificar a situação antes de aplicar é obrigatório — instrumentos sem aprovação não podem ser usados para fins diagnósticos.
Estrutura da avaliação: sessão a sessão
| Sessão | Atividade |
|---|---|
| 1-2 | Anamnese: história do desenvolvimento, queixa, histórico escolar/profissional, familiar |
| 3 | Aplicação de escalas com pais/professores (SNAP-IV, Conners) |
| 4-5 | Avaliação cognitiva (WISC-V para crianças, funções executivas para adultos) |
| 6 | Aplicação de escalas complementares; contato com escola se necessário |
| 7 | Integração dos dados e elaboração do laudo |
| 8 | Devolutiva ao paciente e família; orientações práticas |
Para adultos, o protocolo é adaptado: maior ênfase em autorrelato, histórico retrospectivo da infância e impacto no funcionamento profissional.
Como estruturar o laudo de TDAH
O laudo deve seguir a Resolução CFP 006/2019 (Resolução sobre elaboração de documentos escritos produzidos pelo psicólogo) e conter:
- Identificação: nome, data de nascimento, CID-11 do motivo da avaliação, solicitante
- Procedimentos: datas das sessões, instrumentos aplicados, informantes (paciente, pais, professores)
- Histórico relevante: desenvolvimento infantil, histórico escolar/profissional, tratamentos anteriores
- Resultados por instrumento: escores brutos, percentis e interpretação clínica
- Análise integrada: síntese dos dados com hipótese diagnóstica CID-11 (com especificador)
- Conclusão e recomendações: encaminhamentos médicos, pedagógicos e terapêuticos
- Assinatura com CRP
Cuidado com a linguagem: hipótese diagnóstica não é diagnóstico fechado. A redação correta é "os dados são compatíveis com..." ou "os achados sugerem hipótese diagnóstica de...", não "o paciente tem TDAH".
Comorbidades comuns no TDAH
A avaliação deve investigar ativamente comorbidades, que ocorrem em 60-80% dos casos:
| Comorbidade | Prevalência no TDAH | Implicação clínica |
|---|---|---|
| Ansiedade (TAG, fobia social) | 50% | Pode mascarar ou amplificar sintomas de desatenção |
| Depressão | 30-40% (mais em adultos) | Frequente em diagnósticos tardios |
| TOD (Transtorno Opositor Desafiador) | 40-60% (crianças) | Exige abordagem comportamental complementar |
| Dificuldades de aprendizagem | 20-30% | Requer avaliação educacional e AEE |
| TEA | 20-30% | Diagnóstico diferencial crítico; pode coexistir |
| Transtornos do sono | 50-80% | Impacta diretamente os sintomas de desatenção |
O diagnóstico diferencial com TEA é particularmente importante — os dois transtornos compartilham sintomas de desatenção e comportamentos repetitivos, mas têm perfis distintos na comunicação social. Quando há dúvida, a avaliação de TEA deve ser incluída no protocolo.
TDAH em adultos: particularidades do diagnóstico tardio
O diagnóstico de TDAH em adultos tem aumentado significativamente, especialmente em mulheres com predomínio de desatenção que passaram décadas sendo diagnosticadas com ansiedade ou depressão.
Pontos específicos na avaliação de adultos:
- Sintomas retrospectivos: obrigatório confirmar presença de sintomas antes dos 12 anos (mesmo que não diagnosticados)
- Estratégias compensatórias: adultos desenvolvem mecanismos que podem mascarar sintomas em testes estruturados
- Impacto funcional: avaliar carreira, relacionamentos, finanças — não apenas desempenho acadêmico
- Diagnóstico diferencial com esgotamento e burnout: sintomas se sobrepõem; avaliar história longitudinal
O PsiNota AI gera laudos psicológicos estruturados com base no histórico clínico do paciente, economizando até 2 horas por documento. O plano Pro inclui geração de laudos por IA com revisão profissional. Conheça as funcionalidades →
Documentação para fins escolares e de trabalho
Laudos de TDAH frequentemente são solicitados para fins específicos:
Para escola (crianças e adolescentes):
- AEE (Atendimento Educacional Especializado) na rede pública
- Adaptações curriculares (tempo estendido em provas, sala reservada)
- Encaminhamento para avaliação pedagógica complementar
Para universidade:
- Tempo adicional em provas (ENEM, vestibulares, provas de residência médica)
- Sala separada ou supervisor de prova individual
Para mercado de trabalho:
- Adaptações razoáveis previstas na Lei Brasileira de Inclusão (LBI)
- Enquadramento como PCD quando há comprometimento funcional significativo
O laudo deve ser suficientemente específico para embasar essas solicitações, descrevendo o impacto funcional nos contextos relevantes para o paciente.
