Abordagens Clínicas8 min de leitura

Terapia do Esquema: O Que É, Como Funciona e Como Documentar Sessões

Guia clínico completo sobre Schema Therapy: os 18 esquemas desadaptativos, modos, técnicas principais (imagery rescripting, cadeira vazia) e como documentar no prontuário.

Compartilhar:WhatsAppLinkedIn

Resposta rápida

A Terapia do Esquema (Schema Therapy), desenvolvida por Jeffrey Young, é uma abordagem integrativa que combina TCC, teoria do apego, Gestalt e psicanálise para trabalhar padrões disfuncionais profundamente arraigados — os "esquemas". É o tratamento mais eficaz para transtornos de personalidade do Cluster B e C, especialmente quando a TCC convencional não produziu resultados.

Jeffrey Young era terapeuta cognitivo treinado por Aaron Beck quando percebeu que um grupo de pacientes não respondia bem à TCC clássica: pessoas com transtornos de personalidade, padrões relacionais cronicamente disfuncionais, ou histórico de trauma na infância. Esses pacientes tinham dificuldade de fazer as tarefas cognitivas, resistiam à reestruturação de crenças, e frequentemente abandonavam o tratamento.

A resposta de Young foi desenvolver uma abordagem que fosse mais fundo: não apenas as crenças atuais, mas as estruturas cognitivo-afetivas — os esquemas — formadas na infância e adolescência em resposta a necessidades emocionais não atendidas.

O que são Esquemas Iniciais Desadaptativos (EIDs)

Esquemas são padrões emocionais e cognitivos amplos e difusos que se desenvolvem durante a infância e adolescência, elaborados ao longo da vida, e disfuncionais de forma significativa. São como "filtros" através dos quais a pessoa percebe a si mesma, os outros e o mundo.

Quatro processos de desenvolvimento dos esquemas:

  1. Frustração de necessidades básicas (ex: não receber afeto ou segurança)
  2. Traumatização ou vitimização (abuso, violência)
  3. Superindulgência ou permissividade excessiva
  4. Internalização seletiva de crenças e comportamentos dos pais

Os 5 domínios e os 18 esquemas

Domínio 1 — Desconexão e Rejeição Incapacidade de se vincular de forma segura e satisfatória

  1. Abandono/Instabilidade: crença de que vínculos importantes serão perdidos inevitavelmente
  2. Desconfiança/Abuso: expectativa de que os outros vão magoar, enganar ou explorar
  3. Privação Emocional: crença de que suas necessidades emocionais não serão satisfeitas
  4. Defectividade/Vergonha: sensação de ser fundamentalmente defeituoso, inferior, ou sem valor
  5. Isolamento Social/Alienação: sentimento de ser diferente dos outros, não pertencer a nenhum grupo

Domínio 2 — Autonomia e Desempenho Prejudicados Dificuldade de funcionar de forma independente

  1. Dependência/Incompetência: crença de ser incapaz de funcionar sem ajuda externa
  2. Vulnerabilidade a Danos e Doenças: medo exagerado de catástrofes iminentes
  3. Emaranhamento/Self Subdesenvolvido: fusão excessiva emocional com outros significativos
  4. Fracasso: crença de que inevitavelmente fracassará

Domínio 3 — Limites Prejudicados Dificuldade com disciplina interna e responsabilidade

  1. Arrogo/Grandiosidade: crença de ser superior, especial, sem necessidade de seguir regras
  2. Autocontrole/Autodisciplina Insuficientes: dificuldade de tolerar frustração ou controlar impulsos

Domínio 4 — Orientação para o Outro Foco excessivo nos outros em detrimento de si mesmo

  1. Subjugação: supressão excessiva das próprias emoções e necessidades para evitar retaliação
  2. Auto-Sacrifício: foco excessivo em satisfazer as necessidades dos outros em detrimento das próprias
  3. Busca de Aprovação/Busca de Reconhecimento: ênfase excessiva em obter aprovação dos outros

Domínio 5 — Supervigilância e Inibição Supressão de sentimentos, impulsos e escolhas espontâneos

  1. Negatividade/Pessimismo: foco persistente nos aspectos negativos da vida
  2. Inibição Emocional: controle excessivo de respostas e impulsos espontâneos
  3. Padrões Inflexíveis/Crítica Exagerada: crença de que se deve atingir padrões muito elevados
  4. Punição: crença de que pessoas que erram merecem ser punidas severamente

Modos de esquema: o que são e como funcionam na sessão

Os modos representam o estado emocional e de processamento que predomina em determinado momento. São uma evolução do conceito de esquemas que permite trabalhar com pacientes que têm estados muito variáveis — especialmente no TPB.

Os principais modos:

Modos Infantis:

  • Criança Vulnerável: estado de dor emocional central, medo, abandono, solidão
  • Criança Zangada: raiva por necessidades não atendidas
  • Criança Impulsiva/Indisciplinada: age impulsivamente sem pensar nas consequências
  • Criança Feliz: estado funcional de alegria e espontaneidade

Modos Parentais Disfuncionais (internalizados dos pais/cuidadores):

  • Pai Punitivo: voz interna crítica que se pune, envergonha, castiga
  • Pai Exigente: expectativas perfeccionistas e exigências impossíveis

Modos de Coping:

  • Protetor Distanciado: isolamento emocional, desligamento como proteção
  • Capitulador Complacente: submissão, concordância excessiva para evitar conflito
  • Supercompensador: grandiosidade, agressividade, comportamento controlador

Adulto Saudável: o modo funcional que o tratamento visa fortalecer — capaz de gerir as necessidades, equilibrar, tomar decisões maduras.

Como os modos aparecem na sessão:

O paciente entra furioso, acusando o terapeuta de "não se importar de verdade". Isso é a Criança Zangada. Dois minutos depois, começa a se desculpar excessivamente pelo próprio comportamento — está no modo Capitulador Complacente. O terapeuta nomeia os modos: "Aquele que estava zangado há pouco tem boas razões para estar — faz sentido que a Criança Zangada apareça. Posso falar com ela diretamente?"

Nomear os modos externaliza os estados, reduz a fusão com eles, e cria distância metacognitiva.

Técnicas principais

Imagery Rescripting (rescrita de imagens)

Uma das técnicas mais poderosas e específicas da Terapia do Esquema. O processo:

  1. O paciente acessa uma memória de infância dolorosa (onde o esquema foi formado)
  2. O terapeuta pede que descreva a cena em imagem — o que vê, quem está lá, o que acontece
  3. O terapeuta "entra" na imagem — como uma figura protetora
  4. O terapeuta confronta o adulto abusador ou negligente
  5. O terapeuta (ou o paciente adulto, em fases avançadas) dá à criança o que ela precisava: proteção, validação, afeto, saída da situação
  6. A criança na imagem é "levada" para um lugar seguro

Efeito: não apaga a memória, mas altera a carga emocional associada a ela. A pessoa pode lembrar do evento sem ser devastada por ele.

Como documentar imagery rescripting:

"Técnica de imagery rescripting aplicada à memória de ser excluída na escola (idade ~8 anos, esquema de Isolamento Social). Paciente acessou a imagem com dificuldade inicial mas conseguiu mantê-la. Terapeuta entrou na imagem, confrontou os colegas, ofereceu validação à criança. Paciente relatou sensação de calor e alívio ao final. SUDS pré: 8/10, pós: 3/10. Processar na próxima sessão."

Diálogos de cadeira vazia / cadeira dupla

Cadeira vazia: o paciente dialoga com uma figura ausente (pai falecido, parceiro que terminou relacionamento, o Pai Punitivo internalizado). O terapeuta facilita o diálogo.

Cadeira dupla (diálogo de modos): o paciente muda de cadeira para falar de diferentes modos. De um lado, o Pai Punitivo. Do outro, a Criança Vulnerável. O Adulto Saudável media.

Quando usar:

  • Quando há material emocional que não avança com técnicas cognitivas
  • Quando o paciente precisa "dizer o que nunca pôde dizer"
  • Para trabalhar modos que se conflitam internamente

Cartas de esquema

O paciente escreve uma carta para seu esquema — ou uma carta do "Adulto Saudável" para a "Criança Vulnerável". Exercício de integração e mudança de perspectiva, feito como tarefa de casa.

Como documentar sessões de Terapia do Esquema

A Terapia do Esquema é primariamente experiencial — a estrutura de uma sessão varia muito conforme o que emerge. Por isso, a Evolução Livre é o formato mais adequado.

O que incluir na nota:

  • Qual esquema ou modo estava ativado
  • Que técnica foi utilizada (imagery, cadeira, reestruturação cognitiva, reparentalidade)
  • Resposta emocional do paciente (inclui escalas de angústia subjetiva quando aplicável)
  • Avanços ou resistências observadas

Exemplo de nota de evolução livre:

"15ª sessão. Paciente chega relatando semana de grande dificuldade no trabalho — foi criticada pelo chefe e passou 3 dias sem conseguir trabalhar. Modo: Criança Vulnerável ativada (esquema de Defectividade/Vergonha). Iniciamos com grounding breve. Depois imagery: acessou memória de ser criticada pelo pai na frente dos irmãos (idade 10). Conseguiu manter a imagem. Trabalhamos: confrontação do pai (não estava certo em humilhar), validação da criança (ela não era incompetente). SUDS caiu de 9 para 4. Sessão terminou com conexão com Adulto Saudável. Paciente relatou sensação de 'leveza estranha'. Tarefa: carta do Adulto Saudável para a Criança de 10 anos."

Formação em Terapia do Esquema no Brasil

A Terapia do Esquema é uma abordagem especializada que requer formação específica. No Brasil, a SBTE (Sociedade Brasileira de Terapia do Esquema) é a referência principal, com formação credenciada pela ISST (International Society of Schema Therapy).

O nível de treinamento recomendado inclui: formação teórica, supervisão de casos com supervisor credenciado pela ISST, e terapia pessoal — que é especialmente recomendada em uma abordagem que usa a relação terapêutica de forma tão intensa.


A Terapia do Esquema representa uma evolução importante na psicoterapia: reconhece que muitas das dificuldades que os pacientes trazem ao consultório não são resolvíveis com técnicas cognitivas de curto prazo, mas exigem um trabalho mais profundo — emocional, relacional, e às vezes quase parental. Esse trabalho, quando bem conduzido, pode produzir mudanças que o paciente descreveria como "nunca pensei que fosse possível me sentir assim".

Veja também

Abordagens Clínicas

DBT (Terapia Dialético-Comportamental): O Que É, Para Quem Indicar e Como Documentar

Guia prático sobre DBT: os 4 módulos de habilidades, análise em cadeia, estrutura do tratamento, indicações clínicas e como documentar sessões de DBT no prontuário.

Prática Clínica

Transtorno de Personalidade Borderline: guia clínico completo para psicólogos

Critérios diagnósticos, abordagens com evidência (DBT, TFP, MBT), manejo de crises, documentação clínica e desafios da relação terapêutica no TPB. Guia prático para psicólogos.

Documentação Clínica

Evolução Livre em Psicologia: O Que É e Como Escrever (com Exemplos)

Aprenda a escrever notas de evolução livre para prontuários psicológicos. Estrutura, exemplos reais e quando usar esse formato em vez do DAP ou BIRP.

Clínica Prática

Técnicas de TCC: As Mais Usadas na Prática Clínica

As principais técnicas da Terapia Cognitivo-Comportamental explicadas com exemplos de aplicação: reestruturação cognitiva, exposição, ativação comportamental, registro de pensamentos e mais.

Deixe a IA escrever essa nota por você.

Gere notas clínicas DAP, BIRP ou Evolução Livre automaticamente ao final de cada sessão. Conforme Res. CFP 09/2024.

Começar grátis
terapia do esquemaschema therapyJeffrey Youngabordagens clínicasdocumentação clínica

Economize tempo com o PsiNota AI

IA clínica em tempo real + notas DAP/BIRP automáticas + prontuário eletrônico. Plano gratuito permanente.

Criar conta grátis →