Clínica Prática10 min de leitura

Terapia de Casal: Como Conduzir, Documentar e Elaborar Notas Clínicas

Guia completo sobre terapia de casal: avaliação inicial, abordagens (Gottman, EFT), violência doméstica, prontuário do casal, nota clínica e plano terapêutico conjunto.

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Resposta rápida

Terapia de casal é uma modalidade psicoterapêutica onde o casal é a unidade de tratamento. As abordagens com maior evidência são a Terapia Focada nas Emoções (EFT) de Sue Johnson, baseada na teoria do apego, e a abordagem de Gottman, baseada em habilidades de comunicação. A documentação tem especificidades importantes: o prontuário é do casal, e o manejo da confidencialidade entre os parceiros é uma das questões éticas centrais.

Nenhum ser humano sofre em isolamento. Quando uma relação significativa adoece, o sofrimento se multiplica — e frequentemente se retroalimenta num ciclo em que cada parceiro, tentando se proteger, machuca o outro sem querer. A terapia de casal não é para "salvar" relacionamentos — é para dar ao casal as ferramentas para fazer escolhas mais conscientes, sejam essas escolhas construir ou encerrar a relação.

Para o psicólogo clínico que trabalha com casais, o desafio é técnico e ético ao mesmo tempo: como manter a aliança com o casal sem se alinhar a um dos parceiros, como navegar segredos e confidencialidade, como documentar adequadamente um processo que envolve duas pessoas, e como reconhecer quando a terapia de casal está contraindicada.

Avaliação inicial do casal

A primeira sessão de avaliação é uma das mais densas da terapia de casal — e uma das mais importantes para o prognóstico.

O que investigar:

Histórico do relacionamento: Como se conheceram? O que os atraiu? Quando as dificuldades começaram? Houve períodos de boa conexão? O que mudou?

Padrão de conflito: Como brigam? Quem inicia? Como terminam as brigas? Há violência física, psicológica ou verbal?

Objetivos individuais e conjuntos: O que cada parceiro quer da terapia? Os dois querem permanecer juntos? Há algum segredo relevante (caso extraconjugal ativo, plano de separação)?

Motivação e ambivalência: Gottman identifica que muitos casais chegam à terapia com um parceiro já "fora emocionalmente" — o outro ainda quer salvar o relacionamento. Avaliar o nível de comprometimento de cada um é essencial antes de definir o contrato terapêutico.

Avaliação de violência doméstica: Sempre. Em separado, se possível (cada parceiro responde individualmente). Perguntas diretas: "Você já se sentiu fisicamente ameaçado pelo seu parceiro?" "Há situações em que você tem medo de falar o que pensa por receio da reação dele/dela?"

Estrutura familiar: Filhos, histórico de divórcio anterior, dinâmica financeira, famílias de origem.

Sessões individuais na avaliação

Muitos terapeutas de casal realizam pelo menos uma sessão individual com cada parceiro durante a avaliação. Objetivo: colher informações que o parceiro pode não querer compartilhar na sessão conjunta.

Protocolo de confidencialidade: defina antes das sessões individuais o que será tratado como sigiloso e o que pode ser compartilhado na terapia conjunta. O protocolo mais seguro: "O que você me contar na sessão individual permanece confidencial, a menos que represente risco à sua segurança ou à do seu parceiro — nesse caso, discutiremos juntos como manejar."

Nunca: carregar segredo de um parceiro que o outro "tem direito de saber" (ex: caso extraconjugal). Se o parceiro revela um caso ativo que não pretende revelar, o terapeuta tem duas opções: pedir que o parceiro resolva isso antes de continuar a terapia de casal, ou encerrar o processo de casal e oferecer atendimento individual.

As abordagens principais

Terapia Focada nas Emoções (EFT)

Desenvolvida por Sue Johnson na década de 1980, a EFT é provavelmente a abordagem com maior base de evidências em terapia de casal. Sua premissa central: o vínculo amoroso é um vínculo de apego — e os conflitos de casal são, na raiz, expressões de insegurança no vínculo.

O ciclo de apego negativo: quando um parceiro sente que o vínculo está ameaçado (crítica, afastamento, rejeição), ativa uma das estratégias de apego: protesto (raiva, demanda, crítica — "me dê atenção") ou retraimento (distanciamento, silêncio — "não consigo lidar com isso"). O outro interpreta como ataque ou abandono e responde com sua própria estratégia — criando um ciclo que se auto-mantém.

As três fases do tratamento EFT:

  1. Desescalada: identificar e nomear o ciclo negativo ("esse é o ciclo que nos prende"), e criar distância metacognitiva do ciclo
  2. Reestruturação do vínculo: acessar as emoções primárias (medo, tristeza, vergonha) por baixo das secundárias (raiva, crítica), e compartilhá-las com o parceiro de forma vulnerável
  3. Consolidação: integrar as mudanças, solidificar o novo padrão de conexão

Exemplo de intervenção EFT:

Terapeuta (para o parceiro em protesto): "Quando ela fica em silêncio depois de uma briga, o que acontece em você? O que você sente antes da raiva?" Paciente: "Fico apavorado. Penso que ela vai me largar." Terapeuta: "E aí você grita para trazê-la de volta." Paciente: "E ela se fecha mais."

Abordagem de Gottman

John e Julie Gottman basearam seu modelo em décadas de pesquisa observando casais em laboratório — filmando conversas e medindo resposta fisiológica, e depois acompanhando esses casais por anos para ver quem se separava.

Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse — padrões que predizem separação:

  1. Crítica: atacar o caráter, não o comportamento ("Você é egoísta" vs "Quando você chegou tarde sem avisar eu fiquei preocupado")
  2. Desprezo: comunicar superioridade moral — sarcasmo, olho revirando, zombaria. É o preditor mais forte de separação porque comunica nojo pelo parceiro.
  3. Defensividade: tratar-se como vítima para evitar responsabilidade ("Não fui eu, foi você que...")
  4. Fechamento (stonewalling): desengajamento total — murar. Frequentemente é resposta a inundação emocional (flooding fisiológico).

Os antídotos de Gottman:

  • Crítica → Queixa específica com "Eu" ("Eu senti quando...")
  • Desprezo → Construir cultura de apreciação e respeito
  • Defensividade → Aceitar responsabilidade parcial
  • Fechamento → Pedir pausa fisiológica (20–30 min de recuperação)

O Sound Relationship House (A Casa do Relacionamento Sólido): modelo de Gottman com sete camadas — amizade e mapas de amor são a base. Casais que não se conhecem mais (não sabem dos sonhos, medos, preferências atuais do parceiro) têm a base comprometida.

Terapia sistêmica e abordagens integrativas

A perspectiva sistêmica olha para os padrões relacionais como sistemas que se auto-mantêm — não para o "problema" de um ou de outro parceiro. É útil para entender dinâmicas transgeracionais (padrões herdados das famílias de origem), triângulos (quando um terceiro — filho, trabalho, família extensa — é incorporado ao conflito do casal), e a função do sintoma no sistema.

Violência doméstica: quando não fazer terapia de casal

A terapia de casal conjunta é contraindicada nas seguintes situações:

  • Violência física ativa
  • Coerção ou controle (controle financeiro, isolamento, ameaças)
  • Medo de um dos parceiros de ser honesto na sessão por receio de represálias
  • Assédio ou stalking

Por que é contraindicada: A terapia de casal presume que os dois parceiros têm poder relativamente simétrico para negociar e ser ouvidos. Em contexto de violência, isso não existe. Além disso, conteúdos da sessão podem ser usados pelo agressor para intensificar o controle. A vítima pode ser punida por "expô-lo" ao terapeuta.

O que fazer: Encaminhamento para atendimento individual. Informar a vítima sobre recursos disponíveis (CREAS, Delegacia da Mulher, CVV, casa abrigo). Registrar a avaliação de risco no prontuário.

Prontuário na terapia de casal

Quem é o paciente?

O casal é o paciente. O prontuário é do casal como unidade. Isso significa:

  • O prontuário registra o processo do casal, não dados individuais de cada parceiro
  • Informações sobre saúde mental individual de cada parceiro, se relevantes clinicamente, podem ser registradas, mas com cuidado — o prontuário do casal é compartilhado por definição
  • Se um dos parceiros desenvolve uma crise individual (risco de suicídio, episódio psicótico), considerar se é adequado ter prontuário individual separado ou encaminhar para outro profissional

Sessões individuais no processo

Se você realiza sessões individuais no meio de um processo de casal (para aprofundar avaliação, para trabalhar um tema específico), essas sessões devem ter registro separado ou nota clara no prontuário de casal indicando o que foi trabalhado sem violar a confidencialidade do parceiro.

O que registrar na nota de sessão de casal

Nota DAP para terapia de casal:

D: "3ª sessão de casal. Pedro (38) e Ana (35), casados há 11 anos, 2 filhos. Queixa da sessão: discussão durante a semana após Pedro chegar 3h tarde sem avisar. Ambos relatam o padrão usual: Ana critica com sarcasmo ('você nunca pensa em mim'), Pedro fecha ('não adianta falar com você'). Ana chora; Pedro sai de casa por 2h."

A: "Padrão de protesto-retraimento ativo, compatível com ciclo de apego ansioso-evitativo. Ana em protesto (crítica + demanda como grito por conexão), Pedro em retraimento (flooding fisiológico). Crítica de Ana inclui elementos de desprezo (sarcasmo) — fator de risco de escalada. Os dois reconhecem o ciclo quando nomeado pelo terapeuta. Motivação de ambos mantida. Sem sinais de violência doméstica na semana."

P: "Trabalhar com os 'antídotos' de Gottman: queixa específica vs crítica de caráter para Ana; protocolo de pausa fisiológica para Pedro. Para próxima sessão: exercício de Mapa do Amor — atualizar conhecimento mútuo sobre sonhos e preocupações atuais do parceiro."

Plano terapêutico em terapia de casal

O plano terapêutico de casal deve incluir objetivos que sejam:

  • Compartilhados por ambos os parceiros (o que cada um quer e o que querem juntos)
  • Específicos ao padrão relacional (não genéricos como "melhorar a comunicação")
  • Mensuráveis quando possível (frequência de conflitos, satisfação na escala de 0–10, score em questionários de satisfação conjugal como o QSC)

Exemplo de objetivos no plano:

  1. Reduzir ciclo de protesto-retraimento — identificar e interromper o ciclo quando surge
  2. Aumentar frequência de interações positivas (Gottman: 5:1 positivo:negativo)
  3. Reestabelecer intimidade emocional — 3 conversas "profundas" por semana como tarefa de casa
  4. Ana — trabalhar queixas específicas sem crítica de caráter
  5. Pedro — aprender a sinalizar quando está em flooding e pedir pausa sem abandonar a conversa

Encerramento da terapia de casal

Encerramento por conclusão: o casal atingiu os objetivos terapêuticos, tem recursos para manejar conflitos, a satisfação conjugal melhorou. Registre os avanços, o que foi trabalhado, e a orientação sobre recaída (um conflito intenso não significa que "tudo voltou ao pior").

Encerramento por separação: a terapia de casal pode terminar com a separação — e isso não é fracasso. O psicólogo pode ajudar o casal a se separar de forma mais saudável, especialmente quando há filhos. Registre: a decisão foi do casal, como foi o processo de chegada a essa decisão, e encaminhamento de cada parceiro para acompanhamento individual se necessário.

Encerramento por impasse: quando um parceiro desiste da terapia ou do relacionamento. Registre o impasse, o que foi oferecido, e o encaminhamento.


A terapia de casal é um dos trabalhos mais exigentes da clínica psicológica — e um dos mais potencialmente transformadores. Quando dois adultos aprendem a ver o ciclo que os prende em vez de só verem o inimigo à frente, quando encontram a coragem de mostrar a vulnerabilidade por baixo da raiva, algo fundamental pode mudar. O psicólogo que domina essa modalidade oferece algo que poucos profissionais conseguem: a possibilidade de um relacionamento ser reconstruído, não pelo amor que os dois já têm, mas pelos recursos que aprendem a usar juntos.

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